>>> YOU ARE VIEWING A 200 LINE SAMPLE OF EBOOK# E06040 <<< TITLE: O LIVRO DE CESARIO VERDE AUTHOR: CESARIO VERDE EBOOK: E06040 (O'Briens Book Cellar) LANGUAGE: PORTUGUESE O LIVRO DE CESARIO VERDE Prefacio A JORGE VERDE Aqui deponho em suas maos e debaixo dos seus labios o livro do seu irmao. A minha "obra" terminou no dia em que elle saiu da nossa doce amizade para a nossa terrivel amargura: morri, meu querido Jorge--deixe-me chamar assim ao irmao do meu querido Cesario;--morri para as alegrias do trabalho, para as esperancas dos enganos doces! O desmoronamento fez-se, a um tempo, no espirito e no coracao! Dos restos do passado deixe-me offerecer-lhe a dedicacao extremada: peca-me o sacrificio; e, quando no decorrer da vida, se lembrar de nos, tenha este pensamento consolador:--A grande alma de meu irmao soube impor-se a um coracao endurecido; e tenha este outro pensamento: --Mas nao estava de todo endurecido o coracao que soube amal-a. Adeus, meu querido Jorge! S.P. 20 de julho de 1886. Encontramo-nos pela primeira vez no Curso Superior de Lettras. Foi em 1873. Cesario Verde marticulara-se no Curso em homenagem as Lettras, como se as Lettras la estivessem--no Curso. Eu matriculara-me, com a esperanca de habilitar-me um dia a conquista de uma cadeira disponivel. Encontramo-nos e ficamos amigos--para a vida e para a morte. Para a vida e para a morte. Tenho de fallar de mim, se eu pretendo fallar de Cesario Verde. Elle nao teve, desde aquelle dia--ha treze annos--maior amigo do que eu fui; e sobre esta mesa onde eu estou escrevendo, as 10 horas da noite d'este formidavel dia glacial--20 de Julho de 1886, dia do seu enterro,--sobre esta mesa onde eu estou escrevendo tenho estas palavras suas de ha poucos dias:--"E como se de o caso de tu seres o mais dedicado dos meus amigos..." Tenho aqui essas palavras: ellas constituem a justificacao dos meus solucos de ha poucas horas, alli, no cemiterio visinho onde elle dorme--o Cesario!--a sua primeira noite redimida... Eu fui, pois, a luctar nas grandes batalhas da Desgraca, n'aquelle anno para mim terrivel de 1874. Fui-me, a dezenas de leguas de Lisboa. Elle ficou. E no dia em que eu medi forcas com as avancadas do meu destino, a inquietacao invadiu o espirito e o coracao de Cesario Verde, por modo que ja eu assoberbara com o meu desprezo a desventura pertinaz e ainda elle nao vingara libertar-se do peso de seus cuidados e afflicoes. Durante annos escreveu-me centenares de paginas--commentarios sobre os meus infortunios, conselhos do seu espirito lucidissimo, sobresaltos do seu coracao fraternal. Um dia, trocamos estas palavras:--"Como tu tens tempo, meu amigo, para soffrer tanto!"--"Como tu tens tempo, meu amigo, para me acompanhar no soffrimento!". E indispensavel ter conhecido intimamente Cesario Verde para conhecel-o um pouco. Os que apenas lhe ouviram a phrase rapida, imperiosa, dogmatica, mal podem imaginar o fundo de tolerancia espectante d'aquelle bello e poderoso espirito. Elle tinha o furor da discussao--a toda a hora. Eu careco de preparar-me durante horas para a simples comprehensao. As exigencias do meu caro polemista irritavam-me. Eu respondia ao acaso; mas acontecia por vezes que o sorriso ligeiramente ironico do perseguidor expandia-se n'um bom e largo sorriso de convencido; e entao--meu querido amigo! meu santo poeta!--elle saudava com um enthusiasmo de creanca amoravel o que elle chamava o meu triumpho! Nao hesitava em confessar-se vencido; e congratulava-se commigo--porque eu o vencera inconscientemente. A generosa alma chamava aquillo a minha superioridade! Os campos, a verdura dos prados e dos montes; a liberdade do homem em meio da natureza livre: os seus sonhos amados; as suas realidades amadas! Quando aquelle artista delicado, quando aquelle poeta de primeira grandeza julgava em raros momentos sacrificar a Arte aos seus gostos de lavrador e de homem pratico, succedia que as cousas do campo, da vida pratica assimilavam a fecundante seiva artistica do poeta: e entao dos fructos alevantavam-se aromas que disputavam foros de poesia aos aromas das flores. O mesmo sopro bondoso e potente agitava e fecundava os milharaes e as violetas e os trigaes e as rosas! A bondade summa esta no poeta,--mais visivel, pelo menos, do que em Deus. Artista--e de alta plana! Eu pude vel-o cioso de seus direitos e reivindicando-os com tanto de ingenuidade quanto de vigor. E pois que um ligeiro esboco, precedendo mais detido trabalho, estou elaborando sobre os tracos mais salientes d'aquella individualidade, nao me dispensarei d'esta indicripcao: Ha dois mezes escrevia-me Cesario Verde: "O Doutor Sousa Martins perguntou-me qual era a minha occupacao habitual. Eu respondi-lhe naturalmente: Empregado no commercio. Depois, elle referiu-se a minha vida trabalhosa que me distrahia, etc. Ora, meu querido amigo, o que eu te peco e que, conversando com o dr. Sousa Martins, lhe des a perceber que eu nao sou o sr. Verde, empregado no commercio. Eu nao posso bem explicar-te; mas a tua amizade comprehende os meus escrupulos: sim?..." E eu fui a beira de Sousa Martins e perguntei-lhe se o poeta Cesario Verde podia ser salvo. O grande e illustre medico tranquilisou-me --e apunhalou-me em pleno peito:--Que o poeta Cesario Verde estava irremediavelmente perdido! Meu poeta! Meu amigo! Tu estavas condemnado no tribunal superior, quando eu te mentia e ao publico e a mim proprio: estavas condemnado, meu santo! Mas podia viver tranquillo o teu orgulho de artista: o teu medico sabia que o poeta Cesario Verde eras tu proprio, meu pallido agonisante illudido! A esthesia, o processo artistico e a individualidade d'este admiravel e originalissimo poeta merecem a Critica independente uma attencao desvelada. Eu nao hesito em vincular o meu nome a promessa de um tributo que a obra de Cesario Verde esta reclamando. * * * * * E todavia, nao pode o meu espirito evadir-se a idea consoladora de que e um sonho isto que o entenebrece! Nao podes evadir-te, o meu espirito amargurado! mas eu vou libertar-te para a dor! Foi as cinco da tarde--ainda agora. Caia o sol a prumo sobre a estrada do Lumiar e nos vinhamos arrastando a nossa miseria,--nos os vivos; o morto arrastava a sua indifferenca. Chegamos, com duas horas de amargura, alli ao porto de abrigo e de descanco. Veio o ceremonial tragico, o latim, o encerramento. Caso de uma eloquencia terrivel: Entre algumas dezenas de homens nao houve uma phrase indifferente--e em dado momento explosiram solucos n'um enternecimento que ageitava a loira cabeca do cadaver la dentro do caixao--como as maos da mae lh'a ageitaram infantil, no travesseiro, ha vinte e quatro annos, e moribunda ha vinte e quatro horas! Eram sete horas da tarde, o minha alma triste! Eu fui-me a chorar velhas lagrimas de gelo, avocadas por lagrimas de fogo recemnascidas. Fui-me por entre os tumulos, a pedir ao meu Deus de ha trinta annos que que me desse forca, que me desse forca nova,--pois que se prolonga o captiveiro! E a sos, caminhando por entre os tumulos, ao cair da noite, pareceu-me comprehender que nos recebemos forca nova em cada nova dor, para soffrermos de novo--do mesmo modo que o alcatruz de uma nora se despeja para encher-se, para despejar-se --sem saber porque... 20 de Agosto * * * * * A morada nova do Cesario e de pedra e tem uma porta de ferro, com um respiradouro em cruz;--rua n. 6 do cemiterio dos Prazeres. A porta esta um arbusto da familia dos cyprestes--um brinde ao meu querido morto. Eu offerecera uma palmeira que o vento esgarcou ao terceiro dia, e tive de escolher uma especie resistente, ca da minha raca--funebre e resistente. Esta verdejante e vigorosa a pequenina arvore, e de longe e uma sentinella perdida da minha doce amizade religiosa. De longe vou ja perguntando a nossa arvore:--Esta bom o nosso amigo?... E ella inclina os pequeninos trocos, com a gravidade do cypreste:--Bem; nao houve novidade em toda a noite... E que eu vou pelas tardes visital-o; e saber como elle passou e todo um meu cuidado, como e toda a minha alegria o bem-estar d'aquella hora em que nao ha risos. Nao fomos risonhos--o Cesario e eu. As nossas horas de convivencia foram tristes e severas. Depois da morte do Cesario eu deixei de viver nos dominios onde elle sentira consolacoes, alentos, esperancas, onde elle imaginara renascimentos, horisontes, claridades novas. Nunca mais publiquei uma palavra que se lhe nao consagrasse--ao meu querido morto. Em face d'aquelle cadaver eu senti alastrar-se no meu pobre ser fatigado o bem-amado desprezo da vida. O meu santo esta alli,--esta resignado: e tudo. Vos todos, que o amastes, sabei que elle esta resignado--o nosso querido morto impassivel! E n'uma dessas tardes, alguns dias depois da sua morte, eu aproximei da porta de ferro a minha pobre cabeca esbrazeada e olhei para dentro do jazigo, involuntariamente; e entao, como quer que eu visse la a dentro do jazigo alguns caixoes arrumados, e como eu acertasse em descobrir o caixao do Cesario, os solucos despedacaram-se contra a minha garganta, n'uma affliccao immensa e cruel. E foi entao que a voz rouca e enfraquecida do Cesario--lembram-se da voz d'elle?--pronunciou distinctamente la a dentro do caixao:--"Se natural, meu amigo; se natural!" Era a voz do Cesario; era a sua voz tremente e doce, o meu sagrado horror inconsciente! Debrucei-me contra a porta do jazigo e suppliquei n'uma angustia:--"Fala! Dize! Falla, outra vez, meu amigo!" Nao se reproduziu o doloroso encanto. Apenas uma especie de marulho brando, um arrastar de folhagem resequida--e o morto na paz da Morte! Vao ja decorridos dez annos sobre um periodo de alguns mezes serenos da minha via dolorosa. Eu viera a conquistar a certeza de que nao havia luz misericordiosa para a noite que me vem acompanhando e torturando os olhos avidos, desde o berco a sepultura redemptora. Cheguei aqui, a cidade maldita da minha primeira hora e trazia o sonho de uma aurora pacifica de vida nova no meu pobre espirito illudido. A aurora fez-se com um desabamento de esperancas: a crueldade bestial que se debrucara sobre o meu primeiro dia nao estava arrependida, nem fatigada: a perseguicao renasceu. E quando eu, no singular desespero dos esmagados em sua crenca, pensei na Morte como no abrigo antecipado--querido abrigo inevitavel!--a voz <<< END OF SAMPLE... (THE FULL EBOOK HAS 90788 TOTAL CHARACTERS) >>>